A Delegacia Especializada de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa da Bahia (Decrin) revelou um dado alarmante sobre as vítimas de intolerância religiosa no estado. De acordo com o delegado Ricardo Amorim, titular da unidade, cerca de 99% dos casos investigados envolvem pessoas que seguem religiões de matriz africana.
A Decrin, que celebrou um ano de funcionamento no período do Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, atua com foco exclusivo nessas três frentes: racismo, LGBTfobia e intolerância religiosa. Seu objetivo é não apenas investigar crimes, mas também oferecer acolhimento com assistência social e apoio psicológico às vítimas.
Confiança que cresce e crimes mais visíveis
Durante seu primeiro ano de existência, a delegacia se tornou um ponto de referência importante para muitas pessoas que, antes, não denunciavam. Ricardo Amorim explica que, historicamente, a subnotificação desses crimes era muito alta, mas a divulgação do trabalho da Decrin fez com que mais vítimas procurassem ajuda.
"Sempre que vejo notícias sobre o aumento no número de ocorrências de racismo e intolerância religiosa, encaro isso como algo positivo: isso representa o resultado de um trabalho em que as pessoas passam a confiar cada vez mais na atuação da Polícia Civil", afirma o delegado. Ele destaca que esse crescimento reflete mais a confiança da população em denunciar do que, necessariamente, um aumento real da violência.
Atualmente, as ocorrências registradas na Decrin mostram que aproximadamente 50% dos casos são relacionados a crimes de racismo, entre 25% e 30% dizem respeito à LGBTfobia, e cerca de 20% a 25% são de intolerância religiosa. O objetivo da delegacia é ampliar ainda mais o número de registros, mostrando que a busca por justiça é um caminho possível.
Quais os alvos da intolerância?
A intolerância religiosa se manifesta de diversas formas. É comum, por exemplo, o registro de casos em transportes públicos, onde pessoas são ofendidas apenas por usarem guias, roupas ou outros símbolos de suas crenças, especialmente as de matriz africana. Além disso, muitos conflitos ocorrem em contextos de vizinhança, principalmente quando terreiros estão em atividade.
"Na prática, cerca de 99% dos casos investigados envolvem vítimas de religiões de matriz africana", pontua Ricardo Amorim, reforçando a urgência em combater essa realidade.
Há também situações delicadas de intolerância dentro do próprio ambiente familiar, onde indivíduos sofrem discriminação por parte de parentes que seguem religiões diferentes. Nesses casos, a Decrin busca agir com sensibilidade, sem deixar de coibir as práticas discriminatórias.
Atendimento especializado e acolhimento
O que diferencia a Decrin de uma delegacia comum é sua dedicação exclusiva e o preparo de sua equipe. Todos os servidores passaram por um processo de seleção rigoroso e recebem formações contínuas sobre racismo, LGBTfobia e intolerância religiosa, garantindo um atendimento especializado e humano.
Além da investigação policial, a unidade conta com assistente social e o apoio de psicólogos, um diferencial importante para acolher as vítimas, que muitas vezes chegam fragilizadas e desconfiadas. "Não faz sentido afirmar que se trata de uma delegacia especializada se não houver profissionais devidamente capacitados", explica o delegado.
Desafios e o caminho para o futuro
A Decrin também investe em ações preventivas e educativas. Já realizou palestras e atividades em hospitais, shoppings, estações de metrô, faculdades e escolas, buscando se aproximar da sociedade civil para divulgar a existência da delegacia e esclarecer quais condutas são crimes.
O principal desafio, segundo Ricardo Amorim, continua sendo a conscientização. É fundamental mostrar aos agressores que essas práticas são graves e podem resultar em penas de até cinco anos de prisão. Para as vítimas, é importante que saibam de seus direitos e não se submetam a situações de violência devido à sua religião.
A Decrin segue trabalhando para que seja uma referência clara para quem busca apoio e justiça. Denúncias podem ser feitas pelo site: delegaciavirtual.sinesp.gov.br/portal/.

