Entretenimento

BaianaSystem em camarote de Salvador divide opiniões sobre a essência do Carnaval

A presença do BaianaSystem em um camarote de Salvador reacende o debate sobre o lugar dos artistas no Carnaval, dividindo opiniões sobre acessibilidade e a essência da festa. A banda busca ampliar o alcance de sua mensagem, enquanto críticos questionam a coerência.
Por Redação
BaianaSystem em camarote de Salvador divide opiniões sobre a essência do Carnaval

BaianaSystem provoca debate ao tocar em camarote de elite -

Compartilhe:

A notícia de que o BaianaSystem vai se apresentar em um camarote no Carnaval de Salvador, na Bahia, em 2026, jogou lenha na fogueira de uma discussão antiga na maior festa de rua do mundo: há um lugar "certo" para certos artistas tocarem? No meio de tanta diversidade de ritmos e espaços, que vão da pipoca democrática aos camarotes exclusivos, a capital baiana revive o debate sobre acesso, pertencimento e o que realmente define a sua celebração popular.

Para o guitarrista e um dos criadores da banda, Beto Barreto, a presença em um camarote é uma jogada estratégica. "A nossa mensagem, neste momento, precisa estar em todos os lugares. A gente precisa falar para todos, não só para os nossos", explicou ele. O grupo tem shows marcados no famoso Navio Pirata para o folião da pipoca e também no Camarote Salvador no dia 12 de fevereiro, onde vai tocar ao lado de Lazzo Matumbi.

"A gente toca com o Lazzo, na mesma noite do Olodum. Isso tem um significado, pois a gente constrói um contexto muito importante. Essa noite preta que estamos fazendo, com a presença do Lazzo, por exemplo, que é um cara importantíssimo e que vai estar com a gente também no baile que vamos fazer em São Paulo, é quase uma continuidade disso. Precisamos ocupar alguns espaços, principalmente para que essa mensagem chegue", disse Beto Barreto.

Muitos apoiam a ideia de ampliar o alcance da banda. Christian Alves Honório, estudante de música de 21 anos e membro do Neojibá, acredita que uma banda não perde o valor por tocar em diferentes palcos. "Pelo contrário: quanto mais pessoas uma banda como BaianaSystem atingir com a mensagem que prega, melhor", afirmou. Para ele, é crucial expandir a reflexão da banda e atingir públicos diversos, levando a crítica social para onde ela normalmente não chegaria.

Dara Santos, cabeleireira e formada em audiovisual de 29 anos, ressalta a importância de artistas negros como o BaianaSystem levarem sua força e críticas sociais – sobre a estrutura de Salvador, questões raciais e ambientais – para espaços que, muitas vezes, não teriam acesso a esse tipo de música. "O BaianaSystem demorou para se consolidar e, como grupo formado por pessoas negras, foi desvalorizado por muito tempo. Ter espaço nos camarotes é também uma reparação histórica, inclusive financeira, necessária. Todos os artistas deveriam levar suas apresentações, canções, protestos e performances para diferentes espaços. O som já carrega a crítica, mas não deve se limitar apenas à rua: precisa ocupar todo canto", defendeu.

Jonatan Dasmasceno, chefe de bar de 21 anos e fã da banda, vê a oportunidade como positiva. "Baiana é uma sensação hoje em dia, todo mundo conhece e quem não conhece é porque está sem internet. É muito bom ouvir... Muita gente diz que, por ser um camarote de elite, seria complicado eles estarem lá, já que fazem crítica social, mas acho que pode ser uma oportunidade de aprendizado para esse público e também para que ouçam de fato as músicas", refletiu. Mariana Rosa, cabeleireira e grafiteira de 30 anos, complementa que os artistas devem ocupar todos os espaços. "Sendo bem pagos, que estejam lá e que as pessoas que estão no camarote também possam ouvir uma crítica e respeitar esse espaço dado. O Carnaval tem esse lugar de curtição, mas também é um espaço de crítica fundamental... Vai ser uma crítica remunerada. E uma oportunidade para que as pessoas consigam absorver a mensagem que eles transmitem", pontuou.

A visão dos especialistas e o contraponto

Paulo Miguez, professor, reitor da Universidade Federal da Bahia (Ufba) e pesquisador do Carnaval, é categórico: "Não há absolutamente nada que justifique uma impossibilidade do BaianaSystem tocar em qualquer lugar". Miguez sugere que a pergunta a ser feita aos críticos é se eles apoiam a banda comprando seus discos ou assistindo seus shows na TV, destacando que essa é a "lógica da indústria cultural" que permeia toda a produção artística. Ele ainda ironiza: "quem pode acabar tendo um problema são as pessoas do próprio camarote, quando tiverem que cantar as músicas cheias de crítica e denúncias".

Miguez também aponta que a problematização em torno dos camarotes tem uma visão, por vezes, distorcida. "O problema, a meu ver, é apenas quando ele ocupa espaço público. E mesmo neste caso, isto não é um problema do artista, mas sim de quem autoriza. A banda está fazendo aquilo que todo artista precisa fazer: vender sua arte e estar presente no mercado dos bens culturais", esclareceu. Para ele, a perspectiva "purista" não se sustenta, pois todo produto cultural envolve recursos. "Eu adoro o Baiana, onde eles estiverem tocando, vou ter disposição de ouvir e aplaudir. É uma das manifestações no campo da estética musical mais importantes dos últimos anos na Bahia", concluiu.

Mas nem todo mundo concorda. Caio Nascimento, administrador de 27 anos, acha que a presença da banda em um camarote vai contra tudo o que eles cantam. "Para mim não tem sentido, sabe? Bandas assim trazem muita representatividade para as pessoas e transformam em música aquilo que muita gente sente e não pode ou sabe como expressar. São críticas fortes sobre a cidade e a elite dessa cidade. Acredito que o problema todo está no que a banda já representa para os fãs. O significado maior que as músicas têm para a gente. É um movimento. Acho que se qualquer outro artista que costuma cantar para o folião pipoca fosse se apresentar em um camarote, não renderia essa comoção", refletiu.

O episódio, portanto, vai além de definir limites. Ele nos faz pensar em como manter o equilíbrio entre o que é tradicional e o que é novo, e mostra o quanto é importante que a diversidade musical do Carnaval seja uma realidade. O debate sobre o BaianaSystem em um camarote nos lembra que o Carnaval de Salvador é um palco complexo, onde a arte, o mercado e a identidade cultural estão sempre em negociação.