A atriz mineira Débora Falabella, de 46 anos, chega a Salvador, na Bahia, com seu aclamado espetáculo solo “Prima Facie”. Reconhecida em 2024 como a Melhor Atriz de teatro pelos importantes Prêmios Shell, APCA e APTR, Débora traz à capital baiana uma história poderosa que promete mobilizar o público e provocar reflexões.
A peça, que significa “à primeira vista”, estreia nesta quinta-feira (25) no Teatro Jorge Amado e fica em cartaz até 9 de fevereiro. As apresentações acontecem de quinta a segunda-feira, oferecendo ao público baiano a chance de ver de perto o trabalho que já se tornou um fenômeno em outros países e, desde abril de 2024, lota sessões no Rio de Janeiro, gerando intensos debates, especialmente entre as mulheres advogadas.
A Peça 'Prima Facie': Uma Virada na Justiça
Em “Prima Facie”, Débora Falabella dá vida a Tessa, uma advogada criminalista brilhante e assertiva. Tessa construiu uma carreira de sucesso defendendo todos os tipos de clientes, inclusive homens acusados de violência sexual. Ela se orgulha de sua autonomia e de sua capacidade de vencer casos, vivendo sua vida e sexualidade com total liberdade.
No entanto, tudo vira de cabeça para baixo quando Tessa, acostumada a estar do lado da defesa, se torna vítima de violência. Essa experiência a coloca do outro lado do sistema judicial, não mais como advogada, mas como vítima e testemunha. É a partir desse ponto que a peça se aprofunda, mostrando Tessa questionando não apenas sua própria situação, mas também os valores e princípios do sistema de justiça, a condição feminina e as complexas relações de poder.
“A história, por si só, já é muito forte. E a forma como ela é contada faz com que o público se aproxime dessa personagem, caminhando ao lado dela durante toda a trajetória da peça e passando junto com ela por tudo o que precisa enfrentar”, conta Débora Falabella em entrevista.
A atriz explica que a peça escancara como o processo jurídico foi historicamente construído e conduzido por homens, revelando as violências estruturais que o permeiam. Para a autora australiana Suzie Miller, a distinção entre “vida” e “lei” é crucial. A lei busca o que pode ser comprovado, enquanto a vida é feita de experiências que nem sempre deixam registros materiais, especialmente em casos de violência sexual, onde a palavra da mulher e o contexto são essenciais.
Parceria e Paixão pelo Teatro
A direção de “Prima Facie” é da talentosa Yara de Novaes, uma parceria de longa data para Débora. As duas, ambas mineiras, se conhecem há décadas e já dividiram palcos em outras produções, incluindo o Grupo 3 de Teatro. “Eu conheço a Yara há muito tempo. Cresci assistindo a ela no teatro e ela sempre foi uma das minhas grandes referências como atriz. Essa já é a quarta ou quinta vez que ela me dirige. Existe uma conexão muito forte entre nós”, revela Débora.
Trabalhar com temas tão delicados como a violência de gênero é um desafio, mas a atriz acredita na força da arte para lidar com essas questões. “É difícil. Estou lidando com um tema muito sensível para todas nós, mulheres, e isso inevitavelmente me afeta. Ainda assim, acredito que, como artistas, muitas vezes acabamos dizendo aquilo que já não cabe mais dentro da gente. Transformar isso em teatro é uma maneira de refletir e de compartilhar algo que precisa ser dito”, desabafa.
Débora Falabella e a Bahia: Uma Conexão Afetiva
Com 30 anos de carreira no currículo, que incluem sucessos na televisão como a novela “Avenida Brasil”, Débora se diz uma artista que busca boas histórias e personagens, sem distinguir entre audiovisual ou teatro. Onde o trabalho faz sentido, é onde ela quer estar.
Sua relação com a Bahia é de muito carinho e admiração. “Já me apresentei algumas vezes em Salvador e tenho muitos amigos queridos que são daí. Também costumo passar parte das minhas férias em uma praia da Bahia, então é um lugar pelo qual tenho muito carinho”, compartilha a atriz. Ela nutre um enorme respeito pela cultura, força artística e energia da terra.
Estar em Salvador por três semanas, especialmente no período de pré-carnaval e com a celebração do 2 de fevereiro, é motivo de grande animação. “Viver um pouco Salvador, especialmente nesse período tão especial de pré-carnaval, com o 2 de fevereiro e tudo o que essa época carrega de significado e beleza”, conclui Débora, que espera ter saúde para seguir trabalhando com o que ama e aproveitar a vida ao lado da família daqui a 30 anos.
Para Débora, a arte é uma necessidade: “Sou artista porque preciso dizer algo que está além de mim mesma. Essa é a minha forma de expressão no mundo.”

