A agitação dos bastidores do Carnaval de Salvador ganhou um novo capítulo com fortes críticas direcionadas à cantora Daniela Mercury e ao Bloco Crocodilo. Euzébio Cardoso, que já foi diretor executivo de arte do Bloco Afro Olodum, não poupou palavras e classificou a atitude de Daniela como uma “traição”, pedindo que o Conselho Municipal do Carnaval (Comcar) avalie uma possível punição ao bloco da artista.
O centro da discórdia é uma ação judicial que Daniela Mercury e o Crocodilo moveram pouco antes da festa para mudar o horário tradicional do Olodum no domingo de Carnaval. Para o ex-diretor, essa foi uma afronta à história do bloco e à organização da folia.
Disputa por um horário histórico
Euzébio explicou que o Olodum sempre foi o primeiro trio a desfilar no domingo de Carnaval. Ele lembrou um episódio recente para ilustrar a situação:
"O Olodum sempre foi o primeiro trio que saiu no domingo. No dia 3 de fevereiro, Daniela foi convidada pelo Olodum para fazer a última terça-feira da bênção e ela entrou com ação, ela e o Crocodilo entraram com ação agora, basicamente na borda do Carnaval."
A ação judicial pedia que o Bloco Crocodilo fosse o primeiro a sair no circuito Barra-Ondina, uma decisão que chegou a ser concedida em primeira instância, mas logo depois foi revertida. Essa movimentação, às vésperas da maior festa popular da Bahia, gerou grande repercussão e indignação.
Sentimento de traição e uma longa parceria
A relação entre Daniela Mercury e o Olodum é de longa data e cheia de parcerias, o que torna a situação ainda mais delicada para Euzébio Cardoso. Ele relembrou os laços que os uniam:
"O Olodum sempre teve uma relação muito próxima com Daniela. Eu fui o diretor executivo de arte do Olodum, fui a pessoa que abria as portas, que estive no lançamento do primeiro LP dela. Para nós, uma traição."
Para o ex-dirigente, a cantora construiu parte de sua carreira ao lado do Olodum, e a quebra dessa parceria de portas abertas justifica seu forte sentimento de traição.
Implicações jurídicas e o impacto na festa
Euzébio Cardoso, que hoje atua como advogado, também analisou a questão pelo lado jurídico. Ele afirmou que o pedido judicial de Daniela não tinha uma base sólida, especialmente por ser um mandado de segurança que exige provas já prontas e claras. Ele elogiou a decisão do desembargador que negou o pedido, considerando-a "muito feliz na colocação dele".
A preocupação principal de Euzébio, contudo, vai além da briga por horários. Ele destacou o impacto negativo que uma mudança de última hora causaria em todo o planejamento do Carnaval de Salvador, na Bahia:
"Tentar fazer isso já durante o Carnaval, com todas as vendas de abadás, com toda a ordem de desfiles organizada, fica ainda pior. Ia causar um transtorno gigantesco. Prejuízo ao Carnaval, aos foliões, a quem comprou, ao patrocinador, às televisões que fazem planejamento... existe toda uma organização. Se você mexe em um horário tradicional, você mexe em toda a cadeia. Muda trio, muda transmissão, muda patrocínio, muda contrato. É uma engrenagem."
Pedido de punição ao Comcar
A situação ganha um peso ainda maior porque tanto o Bloco Crocodilo quanto Daniela Mercury fazem parte do Conselho do Carnaval (Comcar). Para Euzébio, isso agrava a conduta.
"O Crocodilo e Daniela são membros do Conselho do Carnaval. Eu acredito que o conselho deve, de alguma forma, abrir uma possibilidade de punição, porque isso repercutiu mal para o Carnaval da Bahia."
Ele finalizou sua crítica ressaltando que, em mais de 40 carnavais, nunca viu uma atitude como essa. Para ele, a ação foi um "desserviço ao Carnaval de Salvador", expondo uma tensão desnecessária em um momento tão importante para a festa. Euzébio reforça que não é apenas uma disputa de horário, mas uma questão de respeito à história e à tradição do Carnaval.

