Política

Família de Salvador Denuncia Demolição de Casa sem Aviso Prévio

Uma família de Salvador teve sua casa, onde morava há mais de 70 anos, demolida por equipes estaduais em Pituaçu. Eles denunciam falta de aviso e contestam versão oficial, buscando justiça para a perda de seu único bem físico.
Por Redação
Família de Salvador Denuncia Demolição de Casa sem Aviso Prévio

Flávia, o marido e o filho no imóvel demolido -

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A família da auxiliar de produção Flávia do Nascimento Soares, de 46 anos, e do pedreiro Cristiano Rocha Nascimento, de 45, viveu um pesadelo em 4 de fevereiro de 2026, quando sua casa no bairro de Pituaçu, em Salvador, na Bahia, foi demolida por equipes estaduais. Morando no local há mais de 70 anos, eles alegam que a ação aconteceu sem aviso prévio e levou embora não só a moradia, mas também anos de esforço e dignidade.

O dia começou como qualquer outro, com Flávia saindo para o trabalho. Mas uma ligação desesperada de uma vizinha mudou tudo: pessoas derrubavam a cerca do terreno e o imóvel da família na Rua Alto do São João. “Ela me ligou chorando, dizendo que tinha um pessoal quebrando tudo”, relembra Cristiano. Flávia correu para o local para filmar a ação.

Confusão e Negação: Uma Terceira Pessoa na História

Ao chegar, Flávia encontrou equipes que se identificaram como representantes da Secretaria de Administração do Estado da Bahia (Saeb), Procuradoria-Geral do Estado da Bahia (PGE), Secretaria do Meio Ambiente (Sema) e Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema), além de policiais militares. Ela foi informada de que se tratava de uma ordem de demolição solicitada pelos órgãos estaduais.

O que mais chocou Flávia foi a ausência de um aviso prévio, mandado judicial ou qualquer documento autorizando a ação. A resposta que ela ouviu de um policial a deixou ainda mais confusa: uma terceira pessoa teria se passado por ela e negociado a demolição cerca de 15 dias antes. Flávia negou veementemente qualquer autorização.

“Eu não sei se isso foi um artifício ou se realmente existe essa terceira pessoa. O fato é que nunca autorizamos nada”, afirma Cristiano, marido de Flávia.

Casa no Chão, Bens Levados e o Fim de uma Trajetória

Apesar da contestação da família, a demolição seguiu em frente. O muro foi derrubado, a casa, que era de madeira, veio abaixo, e bens pessoais como fogão, botijão de gás, pia, panelas e outros utensílios foram recolhidos e levados para dentro do Parque Metropolitano de Pituaçu, que fica no entorno. No dia seguinte, a família conseguiu resgatar parte do que restou.

A perda não foi apenas material. Flávia expressa a dor da família, que tem um filho de cinco anos:

“Não foi só uma casa. Foi o pouco que a gente conseguiu construir para dar dignidade ao nosso filho, de cinco anos.”

A família mora no local há gerações. Flávia nasceu e cresceu ali. Eles têm fotos de infância, registros familiares e contas de água e luz de décadas atrás que comprovam a ocupação contínua. Cristiano conta que o terreno é da família há mais de 70 anos, desde a bisavó de Flávia, dona Carmém Costa Silva. Um documento de 1970-1972 de um vizinho, o senhor Valter, já cita o terreno dela. O Parque de Pituaçu, por sua vez, foi criado apenas em 1973, depois que a família já estava estabelecida.

Outro ponto que levanta questionamentos é que, apesar de existirem outras residências vizinhas no mesmo trecho, apenas a casa da família de Flávia foi demolida.

Notificações e um Silêncio Preocupante

A história das notificações também é confusa. Em 2025, a família recebeu um documento supostamente do Inema pedindo esclarecimentos sobre a área. Ao procurar o órgão, descobriram que o documento não era verdadeiro. Dias depois, uma equipe oficial do Inema entregou uma nova notificação, em março de 2025, pedindo documentos de posse da terra. O tio de Flávia, Cícero Pereira do Nascimento, levou todos os documentos da bisavó ao Inema em 24 de abril do mesmo ano.

“Levou todos os documentos de minha bisavó no Inema, compareceu ao Inema no dia seguinte e apresentou todos os documentos exigidos, incluindo provas da posse antiga. Depois disso, não recebemos nenhuma resposta. A gente ficou esperando. Nunca pediram mais nada. E quase um ano depois, simplesmente derrubaram a casa”, relata Flávia.

A Busca por Justiça e as Versões Divergentes

No mesmo dia da demolição, Flávia e Cristiano procuraram o Ministério Público, que, segundo eles, ficou surpreso com o relato e encaminhou o caso à Defensoria Pública do Estado. A defensora classificou a situação como grave e agendou uma audiência urgente para 11 de fevereiro. A família também registrou uma ocorrência na Polícia Civil, que também demonstrou surpresa com a ação.

Questionado, o Inema respondeu por meio de nota que a demolição foi de uma “construção não consolidada erguida irregularmente” dentro dos limites do Parque. Segundo o órgão, a ação foi baseada em uma instrução normativa e parecer favorável da Procuradoria Geral do Estado (PGE), após constatar a “supressão de vegetação nativa e a degradação da flora local”. O Inema afirmou ainda que o proprietário havia sido notificado em março de 2025 e que “o espaço não possuía moradores, sendo utilizado exclusivamente como depósito”, o que contradiz a versão da família.

A Secretaria da Administração do Estado da Bahia (Saeb) declarou que a gestão do parque é responsabilidade do Inema. A Polícia Militar informou que apenas prestou apoio. A Polícia Civil sugeriu contato com os órgãos competentes. A Defensoria Pública informou que aguarda ouvir Flávia para entender a situação. O Ministério Público e a PGE não se manifestaram até a publicação desta matéria.

Enquanto as versões oficiais divergem da narrativa de Flávia, a família lida com a dor da perda. “Nós somos uma família humilde. Tudo o que estava ali foi construído aos poucos. Tiraram o pouco que eu pude dar para o meu filho”, desabafou Flávia, em meio aos escombros e documentos antigos, na esperança de que a Justiça esclareça o que, para eles, foi uma demolição sem aviso, sem diálogo e sem humanidade.