A intolerância religiosa é uma realidade dolorosa que muitas vezes surge dos lugares mais inesperados, inclusive de dentro de casa ou de pessoas próximas. Ela se transforma em ofensas, exclusão e até mesmo violência física e psicológica. Para lembrar a importância do respeito às diferentes crenças e para reforçar a luta contra essa discriminação, celebra-se anualmente, em 21 de janeiro, o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa.
No Brasil, onde diversas fés coexistem, do catolicismo ao espiritismo, do islamismo ao candomblé e evangelismo, a liberdade de exercer a própria religião deveria ser um direito básico, vivido sem qualquer medo. No entanto, histórias de fé e resistência mostram que a batalha ainda é constante, especialmente para as religiões de matriz africana.
Superação familiar e o terreiro como refúgio
A dor do preconceito vindo de familiares pode ser profunda. Contudo, a fé muitas vezes se torna a maior força para seguir em frente. Essa foi a experiência da yalorixá Verônica Vieira, conhecida como Mãe Veca de Oyá, que lidera o Ilè Asé Ibá Oyábassá Lewa Yálodè, no bairro da Liberdade, em Salvador, na Bahia. Ela define seu espaço como uma "casa de selecionados", onde a espiritualidade do candomblé é levada com seriedade e compromisso.
Mãe Veca explica que o candomblé vai muito além do que se vê nas celebrações no barracão; ele exige preparo, conhecimento profundo dos fundamentos e uma entrega verdadeira aos orixás. Seu próprio caminho na religião, iniciado há 12 anos, foi marcado por desafios pessoais. "Meu pai é católico fervoroso e minha mãe, em vida, também era. Quando me iniciei, meu pai foi ver de perto. Ele chegou a chorar e me disse: ‘minha filha, se eu pudesse, eu tinha te tirado de lá’. Eu tive que me calar e esperar o entendimento de todos, inclusive dos meus irmãos", lembrou ela.
"Hoje eu sei que eu venci e eles venceram também. Todos respeitam, minha família frequenta minha casa e me ajuda em tudo", afirma Mãe Veca.
Durante anos, Mãe Veca enfrentou olhares de reprovação e gestos de preconceito, como familiares que faziam o sinal da cruz ao vê-la passar com seus colares sagrados. A realidade atual, porém, é de respeito e aceitação, demonstrando que o diálogo e a persistência podem transformar até as resistências mais arraigadas.
Agressão no trabalho e a dor do sagrado violado
A intolerância religiosa não se restringe apenas ao ambiente familiar. Victória Gabrielle, uma dofonitinha de Oxum de 25 anos, que também faz parte do terreiro de Mãe Veca, vivenciou a violência em seu próprio local de trabalho, vinda de uma amiga de infância, logo após sua iniciação.
"Ela me agrediu verbalmente, jogou objetos em mim e dizia o tempo inteiro que minha conta era um amuleto do diabo. Eu não consegui reagir, apenas a empurrei para evitar algo pior. Depois disso, ela ainda se achou no direito de quebrar minha conta, algo que para mim é sagrado", recorda Victória.
Apesar do impacto emocional profundo, Victória optou por não registrar uma denúncia formal, acreditando que a justiça espiritual se encarregaria da situação. Este caso, como muitos outros, mostra a vulnerabilidade de quem é alvo de preconceito.
Vandalismo e a persistência da violência
Os ataques contra religiões de matriz africana, infelizmente, vão além das agressões verbais. Recentemente, na última terça-feira (20), o terreiro Nzo Mutá Lombô Ye Kayongo Toma Kwiza, em Salvador, foi alvo de vandalismo. O local amanheceu com as paredes pichadas com as palavras "assassinos" e "Jesus", escritas em vermelho na entrada, além de ter equipamentos eletrônicos danificados.
Esses episódios reforçam que o preconceito ainda persiste e se manifesta em ataques físicos e simbólicos, ultrapassando a esfera do discurso. Para líderes religiosos e adeptos do candomblé, combater a intolerância significa denunciar, dialogar e, acima de tudo, garantir o respeito à liberdade religiosa, que é um direito garantido por lei.
Como denunciar a intolerância religiosa
Se você for vítima ou testemunha de intolerância religiosa, é crucial denunciar. Existem diversos canais para isso:
- Disque 100: Serviço gratuito e disponível 24 horas para violações de direitos humanos.
- Delegacia de Polícia Civil: Faça um Boletim de Ocorrência (B.O.) em qualquer delegacia.
- Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi): Procure esta delegacia especializada, se houver uma em sua cidade.
- Canais online: Utilize o site do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) ou o WhatsApp (61) 99611-0100 para a ouvidoria.
É fundamental coletar provas, como prints de tela, vídeos, áudios e contatos de testemunhas, para fortalecer a denúncia.

