Política

Fim da escala 6x1 pode elevar preços em supermercados, dizem especialistas

O debate sobre o fim da escala 6x1 cresce no Brasil. Entenda como essa mudança na jornada de trabalho pode impactar os supermercados e os preços dos alimentos, e quais os possíveis benefícios para os trabalhadores.
Por Redação
Fim da escala 6x1 pode elevar preços em supermercados, dizem especialistas

Fim da escala 6x1 vem ganhando força no Brasil -

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A proposta para acabar com a jornada de trabalho 6x1, onde funcionários trabalham seis dias e folgam um, vem movimentando intensos debates no Brasil. Embora o projeto, que começou a tramitar em fevereiro de 2025, tenha como meta melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores e aumentar o tempo para a família, especialistas e associações do comércio alertam para um possível efeito colateral: a elevação dos preços dos alimentos nos supermercados.

Supermercados em alerta: custos e margens sob pressão

As entidades que representam o setor varejista enxergam a mudança com preocupação. Para eles, o fim da escala 6x1 significaria um aumento considerável nos custos de mão de obra, já que seria preciso contratar mais funcionários para manter as lojas funcionando sem interrupções. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que, para manter o número atual de horas trabalhadas, as empresas poderiam ter um custo extra de cerca de R$ 178,2 bilhões por ano.

“Essa dinâmica provoca queda da produção, do emprego e da renda e, consequentemente, do PIB brasileiro”, afirmou Ricardo Alban, presidente da CNI, em documento.

A Associação Brasileira de Supermercados (Abras) reforça o coro de alerta sobre um possível impacto inflacionário. Segundo a entidade, as margens de lucro líquidas do varejo são bem apertadas, girando entre 2,1% e 2,7%. Com o novo modelo de jornada, essa margem poderia encolher ainda mais, pressionando os supermercados a repassar os custos para o consumidor.

Preços mais caros na prateleira? Não há consenso

A Confederação Nacional do Comércio (CNC) projeta que a lucratividade do setor pode cair cerca de 5,7%, o que significaria uma redução de aproximadamente R$ 73,31 bilhões para cobrir os novos custos. Esse cenário poderia, de fato, empurrar os preços dos produtos para cima.

Contudo, nem todos os especialistas concordam que a alta dos preços será um resultado automático. Fábio Bentes, economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), pondera que a renda da população talvez não seja suficiente para absorver reajustes muito altos. Ou seja, pode não ser tão simples para os supermercados aumentarem os preços sem perder vendas.

O outro lado da moeda: mais qualidade de vida e produtividade

Enquanto o setor varejista se preocupa com os números, os defensores da redução da jornada de trabalho apontam para uma série de benefícios sociais e até econômicos que a mudança poderia trazer. De acordo com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), jornadas de trabalho muito longas atrapalham o convívio familiar e social e podem causar problemas de saúde nos trabalhadores.

Assim, ter mais tempo livre pode significar mais qualidade de vida, menos estresse e mais oportunidades para cuidar da saúde e da família.

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) também questiona a ideia de que a redução da jornada de trabalho levaria, obrigatoriamente, a uma queda no Produto Interno Bruto (PIB) ou a um aumento do desemprego. Pelo contrário, alguns especialistas indicam que a mudança pode até estimular a produtividade das equipes e, quem sabe, até gerar novas contratações.

“O possível impacto sobre o PIB deve ser sopesado com o aumento da qualidade de vida do trabalhador, o tempo disponibilizado para a realização de tarefas de cuidados e as consequências para a melhora da saúde da população”, explicou Felipe Pateo, técnico de planejamento e pesquisa do Ipea.

A discussão, portanto, continua acesa, com a busca por um equilíbrio entre a melhoria das condições de trabalho e a sustentabilidade econômica do setor que abastece a mesa dos brasileiros.