A Lavagem de Itapuã, uma das festas populares mais queridas e tradicionais de Salvador, na Bahia, voltou a colorir as ruas do bairro com sua mistura única de fé, música e celebração. O evento, que em 2026 vai completar 121 anos de história, reuniu cerca de 40 atrações, incluindo blocos e fanfarras, arrastando uma multidão desde as primeiras horas da madrugada. Mas, como toda celebração que atravessa décadas, a Lavagem também viveu e vive suas transformações, gerando diferentes percepções entre os foliões mais antigos. Será que a festa de hoje é a mesma de antes?
Tradição e rituais que encantam gerações
A tradição começou a ser escrita logo cedo, por volta das 2h da manhã, com o famoso Bando Anunciador. O grupo percorreu as ruas entoando louvores até a imponente Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Itapuã. Ao amanhecer, o espetáculo ganhou ainda mais brilho com uma queima de fogos, seguida pelo ritual mais esperado: a lavagem das escadarias do templo, realizada pelas baianas, vestidas com suas roupas alvas e carregando jarros com flores e água de cheiro. É um momento de pura simbologia e renovação.
Trios elétricos x cortejo tradicional: o debate nas ruas
Para muitos que acompanham a Lavagem há anos, as mudanças são evidentes e dividem opiniões. O que antes era predominantemente um cortejo mais tradicional, com o som das fanfarras e a batida dos tambores, hoje se mistura com a modernidade dos trios elétricos.
Valquíria Moraes, que participa da festa há cerca de 10 anos, observa esse cenário com equilíbrio:
"Eu acompanho a lavagem há cerca de 10 anos. Em comparação com outras edições, acho que está mais ou menos. Algumas coisas melhoraram, outras nem tanto."
Ela aponta o trio elétrico como a grande novidade, algo que não existia antigamente:
"Antes, a lavagem era mais tradicional, com as baianas e as carroças. Hoje em dia, tem trio elétrico, algo que não existia antigamente. Isso não chega a atrapalhar o cortejo, mas acaba deixando tudo um pouco mais tumultuado."
Apesar do burburinho extra, Valquíria encara as mudanças como parte do caminho natural de qualquer festa popular:
"É uma evolução. Só tende a melhorar, não prejudica em nada. Está muito bom, porque todo mundo gosta de curtir. Cada um aproveita do seu jeito, cada um curte um pouquinho."
Já Cleusa Dias Mendes, uma veterana na Lavagem de Itapuã, sente que a festa avançou:
"Eu acompanho há muito tempo e estou achando melhor em comparação com outros anos. Tem mais espaço, está melhor organizado do que antes."
Para Cleusa, a adição dos trios é a principal diferença, mas não diminui a magia do evento:
"Antigamente era só o cortejo, hoje tem os trios. Essa é a principal diferença. A festa, no geral, é maravilhosa. A Bahia é bela."
Paulo Cezar, que conhece a Lavagem há mais de duas décadas, reforça o espírito de união e a paz que marcam a celebração, independentemente das novidades:
"Eu conheço a lavagem daqui há mais de 20 anos. É uma lavagem boa, maravilhosa. É uma festa de paz, uma festa de amor."
Ele conta sobre a rotina de quem gosta de viver a festa desde o início:
"A gente sai cedo. Eu cheguei na Igreja da Conceição da Praia por volta das seis horas da manhã e seguimos de lá até aqui. Está tudo tranquilo, tudo de boa."
Programação e homenagens futuras mantêm a chama acesa
A programação da Lavagem de Itapuã não parou na quinta-feira. Ela se estende até a segunda-feira seguinte, com shows no palco da Rua do Tamarineiro na sexta-feira e sábado às 20h, e no domingo às 18h. O grande encerramento é dedicado ao belíssimo ritual de entrega dos presentes a Iemanjá, mostrando a profunda ligação da festa com a religiosidade e a ancestralidade. Olhando para o futuro, a festa já prepara homenagens especiais para 2026: a Ekedi Teresa Alves de Souza, do terreiro Ilê Axé Oyá Demim, de Lauro de Freitas, e o músico, pescador e fundador do Afoxé Korin Nagô, Ulisses dos Santos, de 84 anos, serão celebrados.
A Lavagem de Itapuã mostra que é possível manter a essência da tradição enquanto se abre para o novo, evoluindo sem perder a raiz que a torna tão especial para o povo baiano.

