A famosa história do “espetinho de gato”, que circula há décadas no imaginário popular brasileiro e, principalmente, nos circuitos do Carnaval de Salvador, na Bahia, na verdade, não espanta os foliões. Pelo contrário! Ambulantes experientes da festa notam que o mito rende boas risadas e, surpreendentemente, impulsiona as vendas, transformando uma antiga desconfiança em uma curiosa estratégia de marketing informal.
A desconfiança de que a carne usada nos espetinhos teria origem duvidosa, com preparo improvisado e falta de fiscalização, acompanha a folia soteropolitana. Mas para quem vende nas ruas, a piada virou sinônimo de lucro. Eles sabem como o público brinca com a situação e, mais que isso, como reverter a curiosidade em um bom faturamento.
Rosângela Santos: Humor que vira dinheiro
Rosângela Santos, de 35 anos, é um exemplo de como o humor rende. Ela vende seus churrasquinhos desde os 18 e, hoje, tem um ponto fixo na Suburbana durante o ano, mas em fevereiro, monta sua barraca no Morro do Cristo, no circuito Barra-Ondina. Rosângela já está mais do que acostumada com a famosa lenda do espetinho.
“O povo chega aqui perguntando: tem espetinho de gato? Aí a gente fala que tem, brincando”, conta ela, com bom humor. “A fama não atrapalha, aí é que vende mais. A piada faz com que a galera chegue mais.”
No cardápio de Rosângela, porém, não tem gato. Ela oferece espetinhos deliciosos de carne com calabresa, frango puro e cupim, além de marmitinhas com pirão de aipim e arrumadinho. Com cada espetinho custando entre R$ 15 e R$ 18, e o pirão e o arrumadinho por R$ 25, o faturamento é sempre bom, mas aumenta muito na época da festa.
“Eu vou vender uns mil e quinhentos na noite, mil reais, depende do movimento”, estima Rosângela, explicando que o lucro durante o Carnaval é bem maior do que no seu ponto fixo, onde ela já consegue “ganhar um diário bom”.
Neuza de Sousa: Vinte anos de folia e muito lucro
Outra ambulante que celebra o aumento nas vendas por conta da folia é Neuza de Sousa, de 56 anos. Com mais de 20 Carnavais nas ruas, Neuza vê seu lucro disparar, podendo chegar a R$ 2 mil ou até R$ 2,5 mil por noite. Em sua barraca, ela vende espetos tradicionais por R$ 15 e na chapa por R$ 25, com opções de frango, calabresa e carne.
Os números de Rosângela e Neuza mostram a força da economia informal do Carnaval de Salvador. O espetinho das ruas, apesar das brincadeiras, continua sendo um dos produtos mais populares e rentáveis da festa.
Espetinho “raiz” x “premium”: a preferência do folião
Enquanto os ambulantes vendem seus espetinhos por um preço acessível, entre R$ 15 e R$ 18, alguns bares e estabelecimentos fixos em áreas nobres da cidade oferecem versões “gourmetizadas”, que podem custar R$ 35 ou R$ 40, com cortes especiais, molhos autorais e ambientes climatizados. No entanto, o modelo dos ambulantes não perde força diante dessa concorrência mais sofisticada.
Vender mais de R$ 1.500 em uma noite ou lucrar até R$ 2.500 durante o Carnaval prova que o espetinho de rua segue resiliente e preferido por muitos. Para Rosângela, a escolha é fácil:
“Esse é mais gostoso (do que o gourmet), com certeza. É tão gostoso que o povo come e volta para comprar novamente. Todo dia chega aqui.”
Para ela, a diferença está mais no tipo de carne e no gosto pessoal, garantindo que ambos os tipos de espetinho encontrem seu público e continuem a fazer parte da vibrante cena gastronômica e cultural do Carnaval de Salvador.

