Imagina só: você acorda, liga o computador e, em vez de começar a trabalhar, um assistente de inteligência artificial assume o controle do mouse e do teclado, fazendo tudo por você. Parece um sonho de produtividade, certo? Essa é a promessa de ferramentas como o Moltbot, que agora se chama OpenClaw.
Mas, como um velho ditado diz, nem tudo que reluz é ouro. Por trás dessa ideia tentadora de um “piloto automático” para o seu PC, se escondem riscos sérios de segurança, que podem expor seus dados pessoais e até abrir as portas para golpes digitais.
O que é o Moltbot (OpenClaw) e por que ele é diferente?
O Moltbot, agora conhecido como OpenClaw, surgiu com uma proposta ambiciosa: tirar a inteligência artificial daquela “caixa de texto” que a gente conhece (como o ChatGPT) e colocá-la para agir no seu computador. Em vez de apenas te dar um roteiro de viagem, ele promete entrar nos sites, reservar hotel, comprar passagem e até colocar o compromisso na sua agenda. É a IA que não só fala, mas faz.
A grande sacada, segundo Fabricio Carraro, gerente de produtos da Alura, é que o "cérebro" da IA continua na nuvem, pensando nas ordens, mas as "mãos" do sistema estão direto na sua máquina. Isso significa que ele tem permissão para mover o mouse, digitar textos, abrir programas e navegar na internet, tudo sozinho.
A diferença crucial para os chatbots que usamos normalmente é que o Moltbot não fica isolado na nuvem. Ele precisa ser instalado no seu computador. Para ser útil e fazer o que promete, ele exige acesso total às suas pastas, e-mails, navegadores e senhas. E é exatamente aí que mora o perigo.
A história de um lançamento conturbado e cheio de riscos
O Moltbot causou um burburinho enorme quando apareceu. Em pouquíssimo tempo, virou febre entre quem gosta de tecnologia. Mas a empolgação, como explica Wilson Silva, especialista em IA e CEO da WS Labs, foi muito maior que a análise técnica.
Em menos de três dias, o projeto, que prometia autonomia total, virou um alerta de segurança. Teve até uma disputa legal pelo nome original, que forçou a mudança para OpenClaw (e antes para Clawdbot), por incomodar a Anthropic, criadora do modelo Claude.
O pior foi que criminosos aproveitaram a fama do Moltbot. Eles criaram versões falsas do software e extensões maliciosas para roubar dados de quem, empolgado, resolveu instalar o programa. Especialistas logo encontraram falhas de segurança que permitiam que a IA fosse "sequestrada" por comandos externos.
“A corrida por visibilidade levou à divulgação de ferramentas que não estavam prontas para uso massivo”, explica Wilson Silva.
Seus dados em risco: o que pode acontecer?
O principal perigo de usar IAs como o Moltbot é a exposição "invisível" dos seus dados. Rafaela da Silva, executiva da Navita Enghouse, alerta que o risco vai muito além de apenas perder um arquivo de texto.
Como o agente tem acesso a todo o seu sistema, ele pode "ler" e acessar informações como:
- Cookies de navegação e senhas que você salvou no navegador;
- Chaves de acesso do seu banco e tokens de sessão;
- Conversas e backups de aplicativos como WhatsApp ou Telegram;
- Documentos importantes e fotos pessoais.
Fabricio Carraro também lembra de outro problema: o erro de interpretação. Uma inteligência artificial, mesmo bem-intencionada, pode entender errado um comando. Imagina ela apagando uma pasta importante ou enviando um e-mail confidencial para a pessoa errada? E o pior: como ela age de forma autônoma, fará isso muito rápido, antes mesmo que você consiga fazer alguma coisa.
Rafaela da Silva adiciona que o risco de você pegar um vírus é ainda maior. Você não precisa nem clicar em nada errado. Se o agente autônomo acessar um site infectado para buscar uma informação, ele pode baixar e executar um malware automaticamente, já que ele tem total permissão para mexer no sistema.
“A automação, que é o diferencial, torna-se o principal vetor de risco”, alerta Rafaela da Silva.
Como se proteger antes de instalar uma IA dessas?
Diante de tantas promessas de produtividade, como saber se uma ferramenta como essa é segura? Os especialistas são unânimes: hoje, para o usuário comum, não é recomendado instalar esses agentes autônomos no computador principal, aquele que você usa para acessar o banco, o e-mail pessoal e seus documentos importantes.
Mas, se você estiver curioso, algumas dicas para avaliar os riscos incluem:
- Verifique as Permissões: Se a ferramenta pede acesso total a tudo no seu computador sem explicar por que precisa disso, ou sem oferecer um "ambiente isolado" (uma espécie de caixa de areia para testar), desconfie na hora.
- Cuidado com "Comandos Mágicos": Se tutoriais te pedem para copiar e colar códigos no terminal do seu computador que você não entende, é um sinal vermelho. Evite.
- Evite a Pressa: Projetos que acabaram de ser lançados e estão no auge da popularidade (o famoso "hype") costumam ter falhas que ainda não foram descobertas. Fabricio Carraro sugere esperar que a tecnologia amadureça.
- Busque Fontes Técnicas: Wilson Silva recomenda um "ceticismo saudável". Procure análises de verdadeiros especialistas em segurança da informação, e não apenas de influenciadores que só mostram a ferramenta funcionando de forma divertida.
“A tecnologia avança rápido, mas a maturidade em segurança ainda não acompanha esse ritmo”, finaliza Rafaela.
Por enquanto, ferramentas como o Moltbot e similares devem ser vistas como experimentos para desenvolvedores e entusiastas, e não como assistentes prontos para o dia a dia do consumidor final. O futuro é promissor, mas a segurança vem antes de tudo.

