Em um cenário de passagens cada vez mais caras e menos pessoas usando ônibus e metrôs, o Brasil vive um momento de aquecimento no debate sobre a tarifa zero no transporte público. Enquanto o governo federal estuda a viabilidade da gratuidade em todo o país, manifestações e discussões mostram a urgência do tema.
Em Salvador, na Bahia, por exemplo, o valor da passagem de ônibus de R$ 5,90 chocou muitos, colocando a capital baiana como a terceira mais cara do Brasil, ultrapassando cidades como São Paulo e Rio de Janeiro. Esse aumento provocou até protestos, como o que aconteceu na tradicional Lavagem do Bonfim, no início de 2026.
Usuários sentem o peso do aumento e a falta de qualidade
A realidade dos usuários mostra a gravidade da situação. A enfermeira Karine Galvão vive diariamente os desafios do transporte público. Em um dia normal, depois de pegar o metrô na Estação Pirajá, ela precisava de um ônibus para chegar ao Costa Azul, onde atende um paciente em home care. Depois de quase uma hora de espera, e já nervosa com a possibilidade de atraso, ela desistiu e chamou uma moto por aplicativo.
“Ultimamente ando mais de Uber mesmo, o que encarece muito, mas não tenho como esperar”, contou Karine, que, assim como outros ouvidos na reportagem, não acredita que o aumento da passagem vá trazer melhorias. “Infelizmente não melhora, é sempre essa dificuldade.”
William Lima, de 35 anos, também sente o impacto no bolso. Desempregado, ele gasta mais de R$ 200 por mês em deslocamentos, seja para entrevistas de emprego ou para lazer. “Já ouvi falar da tarifa zero. Tenho esperanças, pois o transporte público no Brasil é ruim e caro e, no meu caso, estou desempregado”, desabafa William.
Os números comprovam essa realidade. Dados da Secretaria de Mobilidade de Salvador (Semob) mostram uma queda brusca no número de passageiros. Em 2019, antes da pandemia de Covid-19, foram 420 milhões de usuários. Já em 2022, esse número caiu para 321 milhões. Essa diminuição é um desafio para o modelo atual, que vê as reclamações só crescerem.
Especialistas apontam soluções e desafios da tarifa zero
Para Juan Pedro Moreno Delgado, professor de engenharia de transporte da Escola Politécnica da UFBA e coordenador do Centro de Estudos de Transporte e Meio Ambiente (CETRAMA), o aumento da passagem é um dos fatores que afasta as pessoas do transporte público. Ele defende que a população precisa de um sistema com mais qualidade, confiabilidade e segurança.
O especialista elenca problemas comuns, como o grande tempo de espera, rotas muito longas e pouca integração entre os modais (ônibus, metrô). Além disso, fatores como a violência urbana, a pandemia e a popularização dos transportes por aplicativo (carros e motos) contribuíram para a queda no número de usuários.
Diante desse cenário, a busca por novos modelos, mais inclusivos e sustentáveis, ganha força. Juan Pedro sugere um Sistema Único de Transporte, comparando-o ao SUS (Sistema Único de Saúde). Segundo ele, os recursos para manter a gratuidade poderiam vir de diversas fontes, como a indústria, o comércio, os serviços, o próprio governo e até mesmo usuários de carros particulares.
O professor e militante social Walter Sakamoto reforça essa visão, destacando que a mobilidade é um direito fundamental e seu custo não deve recair apenas sobre quem usa o transporte. Ele exemplifica:
“Não é justo que dona Maria, que vai na Av. Sete comprar um tecido, pague sozinha. O dono da loja ou o fabricante deveriam contribuir também.”
Sakamoto, autor do livro Tarifa, Mobilidade e Exclusão Social, lembra que a tarifa zero já é uma realidade em algumas cidades e países, trazendo benefícios como a melhora no trânsito e a redução de acidentes.
Tarifa zero: onde já é realidade e o que o governo estuda
No Brasil, 136 municípios já adotam a tarifa zero de forma integral, a maioria sendo cidades de pequeno e médio porte. Apenas Teresina, capital do Piauí, oferece gratuidade no metrô. Cidades como Brasília e São Paulo implementam a gratuidade apenas aos domingos e feriados. Na Bahia, Mata de São João tem a gratuidade desde 2023, e Alagoinhas começou a oferecer o serviço aos domingos e feriados em janeiro deste ano.
O governo federal já está atento à questão. A equipe econômica, a pedido do presidente Lula, está fazendo uma “radiografia” completa do setor, conforme informou o ministro da Fazenda, Fernando Haddad. O estudo vai analisar o custo total do serviço e a contribuição de cada parte: poder público, empresas (via vale-transporte) e trabalhadores.
O ministro das Cidades, Jader Filho, também se manifestou, afirmando que o país não pode mais adiar essa discussão, que já está sendo tratada em diversas partes do mundo. No âmbito estadual, o deputado Hilton Coelho (PSOL), da Bahia, apresentou um projeto na Assembleia Legislativa que propõe estudos técnicos para viabilizar a tarifa zero em ônibus, metrô e ferry-boat. O projeto foi aprovado por unanimidade e busca analisar os custos reais do sistema e fontes de financiamento alternativas.
“O aumento das tarifas afasta usuários, piora o serviço e empurra a população para soluções precárias. Transporte público não pode ser tratado como mercadoria, é um direito social”, afirma o deputado, ressaltando que a tarifa zero amplia o acesso à cidade e faz a economia local girar.
O debate sobre a tarifa zero, portanto, não é apenas sobre o preço da passagem, mas sobre a democratização do acesso, a sustentabilidade do sistema e a qualidade de vida nas cidades brasileiras.

