Os restaurantes de Salvador, na Bahia, estão de olho em uma mudança silenciosa, mas significativa, no comportamento de quem senta à mesa. Ultimamente, os pratos têm chegado menores, e não é por economia. Essa adaptação vem de uma nova onda: a clientela quer continuar aproveitando a boa gastronomia, mas comendo menos.
A explicação para essa transformação tem a ver com o aumento das dietas e, principalmente, com o uso crescente de medicamentos conhecidos por diminuir o apetite, como o Ozempic e o Mounjaro. Comer fora segue sendo um momento de lazer e convívio, mas o hábito de pedir um prato grande, deixar metade ou levar uma marmita para casa está perdendo a força.
Ozempic e Mounjaro: a febre do emagrecimento que muda o cardápio
As chamadas "canetas emagrecedoras" — medicamentos injetáveis com substâncias como semaglutida e tirzepatida — foram originalmente desenvolvidas para tratar diabetes tipo 2. Contudo, ganharam grande popularidade por um efeito colateral valioso: elas agem no corpo aumentando a sensação de saciedade e contribuindo para a perda de peso.
No Brasil, a procura por esses medicamentos explodiu nos últimos anos. Redes sociais, influenciadores e celebridades têm falado abertamente sobre o emagrecimento rápido que essas "canetinhas" proporcionam. O Google registrou um aumento de 80% nas buscas por medicamentos para perda de peso no último ano, mostrando o grande interesse das pessoas por essas soluções.
Restaurantes se adaptam: da tradição à inovação
Essa nova realidade tem levado alguns estabelecimentos a repensar seus cardápios. No La Pasta Gialla, por exemplo, unidade localizada na Pituba e famosa por seus pratos italianos generosos, o movimento foi um retorno às origens. O franqueado Marcelo Reis conta que a rede já trabalhou com meias porções no passado, mas tirou a opção por falta de procura.
"Como surgiu essa tendência dos inibidores, dessas dietas à base de Mounjaro e Ozempic, achamos que era o momento adequado de adaptar e oferecer ao cliente a meia porção novamente", explica Marcelo Reis.
A escolha dos pratos para a meia porção não foi por acaso. Entraram no formato aqueles que se adaptam melhor à divisão, como massas, raviólis, gnocchis, risotos e o popular tagliatelle ao grana padano. “Se o prato tem 400 gramas de massa, a gente consegue colocar 200, sem desperdício de insumo”, detalha Reis.
Apesar da porção ser pela metade, o preço não acompanha na mesma proporção. No La Pasta Gialla, a meia porção custa cerca de 70% do valor do prato normal. Marcelo Reis justifica que custos fixos como gás e mão de obra permanecem os mesmos. Mesmo assim, a percepção do cliente é de vantagem: paga menos, come a quantidade que deseja e mantém a experiência completa.
No Di Liana, um restaurante tradicional em Ondina, a história é um pouco diferente. A meia porção faz parte da identidade da casa desde sempre, muito antes de qualquer debate sobre medicamentos emagrecedores. Lara Allegro, gerente de operações e neta da fundadora Dona Liana, reforça: "Isso sempre fez parte da casa".
Lá, pratos como o tradicional tournedo já nascem como meia porção, convivendo com a linha Dili Fit, que oferece receitas clássicas adaptadas com ingredientes mais leves. "Temos, por exemplo, risoto de pupunha no lugar do arroz arbório", comenta Lara.
Comer com consciência e sabor
O restaurante Silva, no Rio Vermelho, também observa a mudança de comportamento, mas vai além das meias porções. O chef Ricardo Silva acredita que os clientes querem "comer melhor e com mais vontade e consciência". Para ele, o desejo é manter o prazer à mesa, alinhado ao bem-estar e à saúde.
"É um comportamento mais consciente, menos impulsivo", avalia o chef Ricardo Silva.
Ricardo adianta que o Silva pretende repensar os formatos do cardápio. A ideia não é focar apenas em meias porções, mas em novas experiências que despertem sensações. Pratos com sabores intensos, texturas marcantes, preparos na brasa, crus ou curados, e receitas com acidez e gordura equilibradas estão nos planos.
Além disso, o chef aponta para o compartilhamento como outra tendência forte. "Não estamos falando somente de meia porção. Pode ser exatamente o contrário, com opções para duas ou mais pessoas dividirem, mantendo essa história da conversa e da troca”, explica. A decisão de ajustar o cardápio, segundo ele, vem da combinação de pedidos diretos, escuta atenta dos clientes e a observação de um movimento global.
"Não dá para ignorar um comportamento mundial ancorado pelas canetinhas. As pessoas estão comendo de outro jeito", finaliza Ricardo Silva.
A gastronomia soteropolitana se reinventa, provando que é possível unir a tradição do comer bem com as novas necessidades de um público cada vez mais consciente do que coloca no prato.

