A ideia de que trocar a senha é um simples incômodo e sem muita importância já não cabe mais nos dias de hoje. No Brasil, com o aumento assustador dos golpes digitais e os vazamentos constantes de dados, a segurança online virou um assunto urgente para todo mundo.
Muitos usuários ainda ignoram dicas básicas de proteção, deixando a porta aberta para invasões de contas, fraudes bancárias e prejuízos que, muitas vezes, são difíceis de reverter. O Dia Mundial de Trocar Sua Senha, celebrado todo 1º de fevereiro, nos lembra da importância de ficar de olho nas nossas credenciais.
Para entender melhor por que a gente ainda usa senhas tão fáceis e o que fazer para se proteger de verdade, o portal ChicoSabeTudo conversou com Kenneth Corrêa, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), palestrante e especialista em dados. Ele explicou a nova cara do crime no país e o que podemos fazer para nos defender.
Por que a gente ainda usa senhas fracas?
Mesmo com toda a tecnologia disponível, como a autenticação em duas etapas e a biometria, senhas óbvias como “123456”, “senha123” ou datas de nascimento continuam sendo as mais usadas por aqui e no mundo. Kenneth Corrêa explica que o problema vai além do comodismo.
“O uso de senhas como ‘123456’ ou datas de nascimento não é exatamente um ‘comodismo’ consciente; é um reflexo de que a maioria das pessoas nem sequer pensa sobre o risco”, afirma o especialista.
Para Corrêa, existe uma falha na forma como vemos o mundo digital. A gente não conecta a criação de uma senha simples com a possibilidade real de um crime. Ele chama isso de “miopia digital”, onde os dados pessoais são subestimados até que o prejuízo financeiro aconteça.
Golpes digitais superam roubos tradicionais
Os vazamentos de dados dos últimos anos mudaram completamente o cenário da criminalidade no Brasil. Informações como CPF, telefone, e-mail e até o histórico de compras viraram matéria-prima para golpistas que criam fraudes altamente personalizadas.
“Os vazamentos de dados massivos funcionam como o ‘combustível’ para uma mudança histórica no perfil do crime no Brasil”, explica Corrêa.
Os números oficiais confirmam essa virada: pela primeira vez, os estelionatos (golpes e fraudes) superam — e muito — os roubos tradicionais. Desde 2018, enquanto os roubos caíram 51%, os estelionatos saltaram impressionantes 408%. Só em 2024, tivemos mais de 2,1 milhões de casos de estelionato contra cerca de 745 mil roubos.
Essa mudança mostra que o criminoso está migrando do crime físico para o digital, pois é mais lucrativo e menos arriscado. Com a ajuda da inteligência artificial, os golpistas transformam os dados vazados em abordagens tão convincentes que a vítima nem percebe que a senha fraca foi o primeiro passo para o golpe.
“Hoje, o volume de boletins de ocorrência por golpes digitais no Brasil já supera o de todos os outros crimes somados”, alerta Corrêa.
Aplicativos bancários são o alvo principal
Entre todos os alvos, os aplicativos de bancos e finanças são os preferidos dos criminosos. O motivo é claro: acesso direto ao dinheiro, transferências instantâneas via Pix e a facilidade de contratar empréstimos em segundos.
“Aplicativos financeiros são o ‘pote de ouro’ pela liquidez imediata: uma senha fraca permite que um criminoso esvazie saldos, tome empréstimos e realize transferências via Pix em segundos”, explica Kenneth Corrêa.
A recuperação do dinheiro perdido pode ser muito difícil. Por isso, ele reforça que uma senha fraca no banco não é só descuido, é um risco financeiro enorme. Um ponto crucial é a verificação em duas etapas (2FA), que funciona como uma trava extra.
“Mesmo que a pessoa use uma senha óbvia, a 2FA funciona como uma trava extra que impede o acesso imediato”, diz o professor. “Ter uma senha fraca é um risco enorme, mas não ter o 2FA ativado é como deixar a porta aberta com a chave na fechadura.”
5 práticas essenciais para proteger suas contas
Proteger-se no mundo digital não exige ser um expert em tecnologia, mas sim ter disciplina. Segundo Corrêa, o erro mais grave é reutilizar senhas.
“Usar o mesmo código para o e-mail, redes sociais e banco cria um efeito dominó onde uma única falha derruba toda a sua vida digital”, adverte.
Para manter suas contas seguras, siga estas cinco dicas simples:
- Crie senhas únicas e compridas para cada serviço: Evite combinações óbvias e nunca repita a mesma senha, principalmente para e-mail e banco.
- Ative a verificação em duas etapas (2FA): Sempre que possível, use aplicativos autenticadores em vez de SMS, que pode ser interceptado.
- Nunca use a senha do e-mail em aplicativos bancários: Seu e-mail é a “chave mestra” para recuperar acessos em vários serviços.
- Use gerenciadores de senhas confiáveis: Essas ferramentas ajudam a criar e guardar suas senhas de forma segura, evitando que você cometa erros.
- Troque senhas depois de vazamentos ou atividades estranhas: Se receber alertas de login desconhecido ou souber de algum vazamento, mude suas senhas imediatamente.
Kenneth Corrêa conclui que a tecnologia pode facilitar a segurança. “A prática mínima indispensável hoje é o uso de passkeys ou biometria, combinados com ferramentas que automatizam a segurança sem gerar esforço adicional”, finaliza.

