Polícia

PCC movimenta R$ 10 bilhões e investe em negócios lícitos

O Primeiro Comando da Capital (PCC) movimenta R$ 10 bilhões anualmente, segundo investigações, e diversifica seus investimentos do tráfico para negócios formais e contratos públicos.
Por Redação
PCC movimenta R$ 10 bilhões e investe em negócios lícitos

Ilustrativa - Primeiro Comando da Capital (PCC) -

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O Primeiro Comando da Capital (PCC) se tornou uma verdadeira máquina financeira, com movimentação estimada em pelo menos R$ 10 bilhões por ano. Esse valor impressionante, revelado em audiência da CPI do Crime Organizado no Senado pelo promotor Lincoln Gakiya, do Gaeco de São Paulo, mostra como a facção criminosa não se limita mais a atividades clandestinas, mas agora investe pesado em negócios lícitos, até mesmo em contratos com o poder público.

As investigações dos últimos anos, conduzidas por promotores e policiais, traçam um novo perfil do grupo. Antes, as empresas funcionavam mais como fachadas para lavar dinheiro sujo. Hoje, o cenário é mais complexo: membros do PCC e seus parceiros comerciais aplicam diretamente dinheiro do crime em empreendimentos formais, buscando lucro e uma aparência de legalidade.

Tráfico de drogas: a mina de ouro que nunca seca

Apesar da sofisticação nos investimentos, o tráfico de drogas continua sendo a principal fonte de dinheiro para o PCC. A facção se estruturou como um dos maiores grupos de narcotráfico da América do Sul, indo muito além das fronteiras brasileiras. Existem lideranças do PCC instaladas em países andinos, negociando cocaína direto com os produtores. As rotas chegam à Europa e à África, e há mais de cinco anos a facção coopera até com a máfia italiana 'Ndrangheta.

Essa expansão no narcotráfico ganhou força após 2016, quando o traficante Jorge Rafaat Toumani foi assassinado em Pedro Juan Caballero, no Paraguai. A partir desse momento, o PCC passou a dominar a chamada “Rota Caipira”, que corta o Mato Grosso do Sul e o interior de São Paulo até a capital. O grupo também atua, de forma pontual, na Rota do Solimões, outra importante via para escoar cocaína.

Contravenção e golpes virtuais: outras fontes de renda

Além das drogas, a contravenção também garante uma renda constante. O Ministério Público e a Polícia Civil descobriram a atuação do PCC em casas de apostas ilegais, usando máquinas de pagamento em locais clandestinos. Essas descobertas levaram à Operação Spare, conectada à Operação Carbono Oculto. Outra investigação, a Operação Falso Mercúrio, mostrou que dinheiro de caça-níqueis da Grande São Paulo era desviado para uma loja de carros de luxo, visando a lavagem. A Justiça bloqueou mais de R$ 6 bilhões em bens e contas ligadas a essa operação.

Mais recentemente, os golpes virtuais entraram no radar. Desde 2023, a Polícia Federal e as polícias civis apontam ligações entre golpistas que agem por telefone, WhatsApp e internet com o PCC. Uma operação em dezembro daquele ano, no centro de São Paulo, desmantelou um escritório suspeito de atuar nesse esquema, prendendo 24 pessoas.

Infiltração nos negócios lícitos e contratos públicos

A facção não parou por aí e buscou se infiltrar em setores estratégicos da economia, como o transporte público. A Operação Fim da Linha, deflagrada em 2024, revelou que três lideranças do PCC — Silvio Luiz Ferreira, conhecido como Cebola; Cláudio Marcos de Almeida, o Django; e Décio Luís Gouveia, o Português — eram sócios da empresa UPBus, que operava linhas de ônibus municipais em São Paulo. A estratégia era complexa: criar empresas, contratar advogados especializados em concessões e participar de licitações. O poder público precisou agir para anular essas concessões.

As fraudes em contratos públicos também são uma marca da atuação do PCC. Em julho de 2025, a Justiça de São Paulo condenou Vagner Borges Dias, o Latrell Brito, por liderar um esquema de fraudes em licitações ligado à facção. Empresas de fachada simulavam concorrência e manipulavam resultados, resultando em contratos superfaturados em vários municípios paulistas. Antes disso, o Gaeco já havia identificado suspeitas em contratos de serviços de saúde e coleta de lixo, especialmente em Arujá, no estado de São Paulo.

A ambição do PCC chegou até a cadeia de combustíveis. A Operação Carbono Oculto desvendou uma organização criminosa associada ao PCC que controlava desde as estruturas portuárias e o refino até as usinas sucroalcooleiras, transporte, distribuição, postos de abastecimento e lojas de conveniência. Uma prova da extensão e do poder que o grupo criminoso alcançou.

Essas investigações mostram que o PCC se tornou um império criminoso com tentáculos em diversas áreas, transformando bilhões de reais sujos em negócios que parecem legítimos. É um desafio enorme para as autoridades desmantelar essa rede complexa e sofisticada.